segunda-feira, 21 de abril de 2008

Nada

Não tenho nada
nada a não ser a erva húmida sob os meus pés descalços
nada a não ser o fresco alento da noite sobre os meus ombros
nada a não ser este fogo
onde aqueço as minhas mãos
nada a não ser o canto das cigarras
nada a não ser o crepitar dos ramos secos na fogueira
nada a não ser o brilho cúmplice e distante
daquela estrela
talvez já apagada
cujo último raio viajou milhões de anos
para chegar esta noite
até mim.


Yves Moor

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Hoje o céu estava escuro.

Até quando?

Longa procura.
Exausta busca.
Desesperante espera.

Tudo é frio
no mundo
real!

Lá fora chove.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

procurar-me

'sensação estranha de ter passado o dia a procurar-me no olhar de quem passa. ninguém deu por isso, absolutamente ninguém se apercebeu como perscrutei os rostos à espera de um sinal.máscaras e mais máscaras cruzaram-se comigo, e não me encontrei por trás de nenhuma delas.'


Al Berto

quinta-feira, 3 de abril de 2008

migalhas

'... Dás-me licença que te beije? Não? Não te vás embora ainda, deixa-te estar. Apesar de tudo passámos um bocado agradável, não foi? A mim agradou-me. Gosto do teu cheiro. Se te apetecer voltar toca a campainha três vezes e carrego naquele botão que abre a porta da rua. E se me avisares com antecedência compro um bolo. Quando não estiveres cá e me sentir sozinho como as migalhas que sobrarem. Vou contar-te um segredo: há alturas em que as migalhas ajudam.'


antónio lobo antunes