terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Escrevi porque tinha um problema de ódio a resolver.

Se um poema pudesse matar, como de facto deveria matar, eu estaria cercad[a] por uma putrefacçãozinha humana.

E o pânico? Ouviram falar?
A sufocação, o medo.

E eu realmente sem nada - sem revólveres, nem gravatas, nem sequer poemas ou projecto deles.

Mas há uma criminalidade que me interessa.

in Photomaton & Vox, de Herberto Helder

Sim. O mundo afinal transformou-se, algures, em certo momento. E esse algures é em toda a parte, e o momento é o tempo inteiro. Fui eu quem o transformou, em cada instante e ao longo da minha vocação criminal. Acontece assim o equívoco: eles conhecem todas as modalidades acessórias (que desconheço) e eu sei da única regra essencial (que ignoram).

domingo, 3 de janeiro de 2010

Ano a Ano

Sentada na cama, no centro do profundo azul, comendo menta envolvida em puro chocolate, leio neste início do novo ano. Assim aqui fica a minha primeira partilha de 2010:

ANO A ANO

Ano a ano desfaz-se a vida, os alicerces.

São caves, alpendres,
sucessão de pedras no fim dos dias, arquitectura de
enigmas e a amendoeira.

E tu, quem és?
Uma saudade de baías, embarcações,
enquanto a morte cresce na direcção dos cabelos e da
sua brancura?
Uma estrela de deus, um vulto distante?

Ainda que não tenhas nome deitas-te agora junto ao meu -
escreve-o para sempre no segredo dos lares,
repete-o em surdina,
junto ao ouvido doente.

Talvez exista um pátio onde estás, sentado, triste,
como quem espera a noite e os temporais, o frio na
pele e na alma, o sono antigo.

Talvez me sente, talvez te fale, talvez para sempre.

Dar-te-ei um nome?
Morada, destinos, lugares para uma vida?

Eu não sou de aqui.


in Auto-Retrato, de José Agostinho Baptista