"Neste desespero ansioso de que o tempo dure
um pouco mais, não corra tanto, se não escape
não por entre os dedos, mas através da própria
forma das coisas,e do som das vozes, e do pensamento
mesmo, se diria que me devera dar como um doente à morte
e despedir-me calmamente do que se deslaça
entre mim e as coisas, entre mim e os outros, entre
a consciência do existir e a de estar vivo.Devera, sim.
E o sono que me envolve surdo e escuro,sem memórias
nem do que não tive, é uma tão doce tentação de paz!
(...)
E o tempo foge desflando tudo,
rasgando as frágeis telas que aprendi
à minha custa e à das coisas para
criar real o mundo e os olhos que
no mundo reconhecem o real.
Pois fugirá, que fuja. Eu guardarei,
no vazio imenso que se mostra já,
uma pedra negra, dura, imarcessível,
que nada nem ninguém destruirá."
Jorge de Sena
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
sábado, 27 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
Quem dorme à noite comigo?
"Perecerei", disse ele, "irei morrer nesta deplorável loucura. Assim, assim, e não de outra forma, hei-de perder-me. Receio os eventos do futuro, não por si mesmos, mas pelos seus resultados. Estremeço ao pensar em qualquer, ainda que trivial, incidente que venha a agir sobre esta intolerável agitação da alma. Não sinto, na verdade, nenhuma aversão ao perigo, excepto no seu efeito absoluto - no terror. Neste desalento - nesta condição que mete dó - sinto que chegará mais tarde ou mais cedo o período em que deverei abandonar conjuntamente a vida e a razão, num qualquer embate com esse sinistro fantasma: o MEDO."
Edgar Allan Poe
quinta-feira, 4 de março de 2010
Hoje. o sol a bater me na cara. a claridade a querer entrar na minha vida. sorrisos e conversas alienadas numa esplanada sedenta de saudade. Hoje. o peso da data que carrego comigo. Hoje. tu à minha frente impossivel de atingir. Simplesmente mais um dia que vai passar.
O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas.
in O Marinheiro, de Fernando Pessoa
O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas.
in O Marinheiro, de Fernando Pessoa
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Escrevi porque tinha um problema de ódio a resolver.
Se um poema pudesse matar, como de facto deveria matar, eu estaria cercad[a] por uma putrefacçãozinha humana.
E o pânico? Ouviram falar?
A sufocação, o medo.
E eu realmente sem nada - sem revólveres, nem gravatas, nem sequer poemas ou projecto deles.
Mas há uma criminalidade que me interessa.
in Photomaton & Vox, de Herberto Helder
Sim. O mundo afinal transformou-se, algures, em certo momento. E esse algures é em toda a parte, e o momento é o tempo inteiro. Fui eu quem o transformou, em cada instante e ao longo da minha vocação criminal. Acontece assim o equívoco: eles conhecem todas as modalidades acessórias (que desconheço) e eu sei da única regra essencial (que ignoram).
Se um poema pudesse matar, como de facto deveria matar, eu estaria cercad[a] por uma putrefacçãozinha humana.
E o pânico? Ouviram falar?
A sufocação, o medo.
E eu realmente sem nada - sem revólveres, nem gravatas, nem sequer poemas ou projecto deles.
Mas há uma criminalidade que me interessa.
in Photomaton & Vox, de Herberto Helder
Sim. O mundo afinal transformou-se, algures, em certo momento. E esse algures é em toda a parte, e o momento é o tempo inteiro. Fui eu quem o transformou, em cada instante e ao longo da minha vocação criminal. Acontece assim o equívoco: eles conhecem todas as modalidades acessórias (que desconheço) e eu sei da única regra essencial (que ignoram).
domingo, 3 de janeiro de 2010
Ano a Ano
Sentada na cama, no centro do profundo azul, comendo menta envolvida em puro chocolate, leio neste início do novo ano. Assim aqui fica a minha primeira partilha de 2010:
ANO A ANO
Ano a ano desfaz-se a vida, os alicerces.
São caves, alpendres,
sucessão de pedras no fim dos dias, arquitectura de
enigmas e a amendoeira.
E tu, quem és?
Uma saudade de baías, embarcações,
enquanto a morte cresce na direcção dos cabelos e da
sua brancura?
Uma estrela de deus, um vulto distante?
Ainda que não tenhas nome deitas-te agora junto ao meu -
escreve-o para sempre no segredo dos lares,
repete-o em surdina,
junto ao ouvido doente.
Talvez exista um pátio onde estás, sentado, triste,
como quem espera a noite e os temporais, o frio na
pele e na alma, o sono antigo.
Talvez me sente, talvez te fale, talvez para sempre.
Dar-te-ei um nome?
Morada, destinos, lugares para uma vida?
Eu não sou de aqui.
in Auto-Retrato, de José Agostinho Baptista
ANO A ANO
Ano a ano desfaz-se a vida, os alicerces.
São caves, alpendres,
sucessão de pedras no fim dos dias, arquitectura de
enigmas e a amendoeira.
E tu, quem és?
Uma saudade de baías, embarcações,
enquanto a morte cresce na direcção dos cabelos e da
sua brancura?
Uma estrela de deus, um vulto distante?
Ainda que não tenhas nome deitas-te agora junto ao meu -
escreve-o para sempre no segredo dos lares,
repete-o em surdina,
junto ao ouvido doente.
Talvez exista um pátio onde estás, sentado, triste,
como quem espera a noite e os temporais, o frio na
pele e na alma, o sono antigo.
Talvez me sente, talvez te fale, talvez para sempre.
Dar-te-ei um nome?
Morada, destinos, lugares para uma vida?
Eu não sou de aqui.
in Auto-Retrato, de José Agostinho Baptista
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