quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Elegia por certo

"Neste desespero ansioso de que o tempo dure
um pouco mais, não corra tanto, se não escape
não por entre os dedos, mas através da própria
forma das coisas,e do som das vozes, e do pensamento
mesmo, se diria que me devera dar como um doente à morte
e despedir-me calmamente do que se deslaça
entre mim e as coisas, entre mim e os outros, entre
a consciência do existir e a de estar vivo.Devera, sim.
E o sono que me envolve surdo e escuro,sem memórias
nem do que não tive, é uma tão doce tentação de paz!

(...)


E o tempo foge desflando tudo,
rasgando as frágeis telas que aprendi
à minha custa e à das coisas para
criar real o mundo e os olhos que
no mundo reconhecem o real.
Pois fugirá, que fuja. Eu guardarei,
no vazio imenso que se mostra já,
uma pedra negra, dura, imarcessível,
que nada nem ninguém destruirá."


Jorge de Sena

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