Madame Bovary,
de Gustave Flaubert
Pequeno excerto (pg.81)
" - A minha mulher não se ocupa disso - respondeu Charles. a Apesar de lhe ser recomendado o exercício, gosta mais de ficar no quarto a ler.
- É como eu - atalhou Léon. - Há lá efectivamente coisa melhor do que ficar, à noite, ao canto da lareira, a ler um livro, com c luz acesa, enquanto o vento bate nas vidraças!...
- Não é? - disse ela, fixando sobre o rapaz os grandes olhos negros muito abertos.
- Nao se pensa em nada - continuava ele - e as horas passam. Passeia-se, imóvel em países que se julga ver o pensamento, enlaçando-se na ficção, demora-se nos pormenores ou segue o desenrolar das aventuras. Mistura-se com os personagens; parece que somos nós que palpitamos dentro da roupa deles.
- É verdade! É verdade! - dizia ela.
- Nunca lhe aconteceu - continuou Léon - encontrar num livro uma ideia vaga que já teve, alguma imagem obscurecida que vem de longe e que parece uma exposição completa do seu mais subtil sentimento?
- Já senti isso mesmo - respondeu ela.
- É por isso - disse ele - que aprecio sobretudo os poetas. Acho os versos mais ternos do que a prosa e fazem-nos mais facilmente chorar.
- No entanto, acabam por cansar - continuou Emma. - Eu agora, pelo contrário, adoro as histórias que se seguem de um fôlego e que fazem sentir medo. Detesto os heróis vulgares e os sentimentos moderados, como se encontram na natureza.
- Com efeito - observou o escriturário -, essas obras, não tocando o coração, afastam-se, a meu ver, do verdadeiro objectivo da arte. É tão agradável, no meio das desilusões da vida, poder a gente reportar-se, por intermédio do espírito, a caracteres nobres, afeições puras, quadros de felicidade! Para mim, que vivo, longe do mundo, é a minha única distracção; mas Yonville oferece tão poucos recursos!"
" - A minha mulher não se ocupa disso - respondeu Charles. a Apesar de lhe ser recomendado o exercício, gosta mais de ficar no quarto a ler.
- É como eu - atalhou Léon. - Há lá efectivamente coisa melhor do que ficar, à noite, ao canto da lareira, a ler um livro, com c luz acesa, enquanto o vento bate nas vidraças!...
- Não é? - disse ela, fixando sobre o rapaz os grandes olhos negros muito abertos.
- Nao se pensa em nada - continuava ele - e as horas passam. Passeia-se, imóvel em países que se julga ver o pensamento, enlaçando-se na ficção, demora-se nos pormenores ou segue o desenrolar das aventuras. Mistura-se com os personagens; parece que somos nós que palpitamos dentro da roupa deles.
- É verdade! É verdade! - dizia ela.
- Nunca lhe aconteceu - continuou Léon - encontrar num livro uma ideia vaga que já teve, alguma imagem obscurecida que vem de longe e que parece uma exposição completa do seu mais subtil sentimento?
- Já senti isso mesmo - respondeu ela.
- É por isso - disse ele - que aprecio sobretudo os poetas. Acho os versos mais ternos do que a prosa e fazem-nos mais facilmente chorar.
- No entanto, acabam por cansar - continuou Emma. - Eu agora, pelo contrário, adoro as histórias que se seguem de um fôlego e que fazem sentir medo. Detesto os heróis vulgares e os sentimentos moderados, como se encontram na natureza.
- Com efeito - observou o escriturário -, essas obras, não tocando o coração, afastam-se, a meu ver, do verdadeiro objectivo da arte. É tão agradável, no meio das desilusões da vida, poder a gente reportar-se, por intermédio do espírito, a caracteres nobres, afeições puras, quadros de felicidade! Para mim, que vivo, longe do mundo, é a minha única distracção; mas Yonville oferece tão poucos recursos!"
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