domingo, 15 de novembro de 2009

A ti

"Em retrocesso, achara-se uma destas vezes dizendo para si próprio:
-Meu Deus... meu Deus... é que, no fundo, sou o mesmo desgraçado doutrora... Tenho as mesmas saudades... os mesmos desejos... iguais amarguras... Certo dia é que determinei que assim não fosse... por já não me interessar a minha angústia... por me haver nauseado de ser infeliz... Ai, que eu sempre determinei as minhas opiniões...e os meus afectos.. os meus estados de alma... como sempre decidi os estados de alma dos outros... Eis donde partem todos os meus desenganos... as minhas ilusões e as minhas infâmias...
Mas logo, expulsando tais ideias - em ascensão, de novo se cingira do orgulho adamantino, e regressava ao seu estado de alma anterior."

Mário de Sá-Carneiro, in Ressurreição


A ti, hoje, neste teu dia, te dedico um excerto de um escritor que adoro. A ti que me mostraste o mundo da literatura, que me contagiaste com esse amor pelos livros. A ti, Avô, que já partiste, deixo apenas brotar uma lágrima de saudade.

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